Gameleira, vila de pescadores nas barrancas do rio. Erosão social e física.

Karin Ortega 4 de junho de 2012 1
Gameleira, vila de pescadores nas barrancas do rio. Erosão social e física.

A convite da Engenheira Valmara Sandes, em outubro de 2009, conheci a Vila de Gameleira, um distrito do extenso e pequenino município de Sitio do Mato, local de rancho dos peregrino dos sertões da Ribeira, do além São Francisco e de Goiás, pousavam em sua caminhada até o Santuário do Bom Jesus da Lapa. Relatos são feitos que as pessoas em peregrinação, durante às noites acendiam fogueiras para afugentar as onças que abundavam na região.

Para se chegar ao lugar a partir de Bom Jesus da Lapa até Gameleira, vila situada às margens do São Francisco, é uma verdadeira Odisséia. É preciso ter fibra daquelas bem resistentes, tipo embira de caroá no corpo para enfrentar a estrada. Asfalto esburacado, mais parece que estamos num cenário de bombardeio, depois vem às estradas vicinais de terra, toda ladeada de fazendas com presença de umbuzeiro e gado bovino. Aonde nossos carros atravessam cortando e saltitando buracos e crateras. São os nossos sertões esquecidos e que insistem em sua existência, persistem.

A Vila é um povoado antigo, onde as fachadas de suas casas denunciam um passado de certa intensidade comercial, quando o rio era a principal via de escoamento de produtos e transporte de pessoas. Situa-se numa sinuosa e longa curva do rio. Devido a problemas por que passa o rio; verifica-se, nitidamente, a ação da resposta da natureza, os casarios e arruamento próximo à margem do rio estão sendo devoradas. Na margem oposta ao assentamento há extensa área com areia e do lado da vila o processo mencionado tem avançado engolindo ruas. Como alternativas está sendo gestada a realocação de habitantes para casinholas e a construção de um cais.

O processo erosivo em foco possui características singulares, conforme expõe o Dr. Nelsino, com sua vivência nas terras do São Francisco, ele caracteriza o fenômeno de solapamento de camadas inferiores, que escavam o perfil dos solos e suas camadas mais inferiores. Tal processo erosivo provoca, por conseguinte, a queda de camadas superiores da encosta. Portanto, o serviço de construção do cais é necessário, mas cuidados devem ser tomados para o perfeito enrocamento de sua base, atento ao aspecto e modelo da erosão instalada, seguida de outras ações como plantio das margens com espécies que, efetivamente, contenham o talvegue desde o nível rente ao rio em fluxo normal. Algumas gramíneas, mesmo que exóticas, como os bambus podem exercer este papel.

Por seu turno, para além do modelo construtivo das casas, deve-se perceber a concepção dos projetos dessa natureza. Como noutros exemplos a sua concepção é exógena e não leva em conta o modo de vida da população local. Enfaticamente, necessita-se de mudanças, de reversão, pois a população necessita mais que auscultada, deve ser escutada, ser sujeito. Envolvida no processo novo que se inicia na (re) vida do rio, com suas respostas, a processos desencadeados ou apressados pela ação antrópica.

Hoje a população tem de se afastar do rio, residir em bairro novo que não satisfaz as suas aspirações, daí o equivoco e paga-se um preço por não ter se atentado à necessidade de um trabalho com a população de grandes mutirões de pensar, desenhar casas, arruamentos, quintais, arborização, equipamentos comunitários, o necessário saneamento ambiental, dentro de um espírito que equacione necessidade versus recursos existentes.

Desse modo, revitalizar mais que obras físicas são necessárias uma nova concepção de projeto, de ação governamental. É preciso despir-se de velhos conceitos, de interesses alheios aos da população local e, em verdade, construir uma democracia participativa. Por outro sertão, por uma revitalização que fomente a Vida para todos, com equidade, justiça social e participação em todas com poder de decisão.

Autor: Aurélio Carvalho, Eng. Agr e MS em Ciências Agrárias, Engenheiro Agrônomo – UFBA. Professor do IF Baiano, Campus Senhor do Bonfim.

Um Comentário »

  1. Acacio Gordiano 7 de junho de 2012 às 16:12 - Responder

    Uma parte já se foi e outra parte de Gamaleira antiga esta fadada a desaparecer por causa da queda do barranco. É uma pena.

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